Tecnologia x Liberdade
27 November 2007
Creio que muitos dos assinantes da Revista Exame encontram-se na confortável situação de folhear com um certo desprezo algumas páginas da revista. Digo isso não pelo conteúdo, não pelos artigos , que por sinal são muito bons , mas por questões de foco. Me dou ao luxo de não ler 13 páginas pra saber que o Santander é hoje o banco com perfil mais agressivo no mercado, muito menos o impacto que isso terá no mercado financeiro… me basta a informação.
É claro que agora surge a inevitável pergunta: - “Então porque diabos você a assina ?”. Mais uma vez : Foco.
Consigo ler sobre gestão sustentável e por “osmose” entender como a mesma é aplicada na Unilever, por exemplo, ou mascarada, no caso da Ipiranga ( vide o cartão Ipiranga Carbono Zero ) . Enfim, leio sobre assuntos que gosto e “por tabela” absorvo conhecimento que dificilmente me causaria interesse por si só.
Geralmente assim que a revista chega vou diretamente à seção de Tecnologia, mas com a edição deste mês foi diferente. Não sei o motivo.
A seção Livros tratava sobre o assunto Estratégia e para meu espanto apresentou um livro muito interessante. Confesso que já havia ouvido falar dele , talvez em algum café após o almoço ou até mesmo em algum happy hour da vida. Enfim, provavelmente o tenha colocado junto ao amontoado de coisas que pretendia ler e acabei esquecendo.
O nome do Livro é The Strategy Paradox – Why Committing to Success Leads to Failure and What to do About It de Michael E. Raynor.
Claro que não irei “resumir” o resumo já feito na revista, mas o que me chamou a atenção, mesmo ainda não tendo lido o livro foi o seguinte fato: em um trecho da reportagem a repórter Melina Costa, descreve, usando palavras do autor, o ponto de partida do livro como “a tese de que modelos de negócio, por mais bem estruturados que sejam, podem desabar diante de mudanças drásticas no mercado”. ”Na opinião dele, as estratégias das empresas mais bem sucedidas guardam similaridades impressionantes com àquelas que originaram fracassos retumbantes. A diferença entre os extremos é: sorte.”
Sorte? Às vezes é tudo uma questão de conceito.
Na mesma edição, o editor Sergio Teixeira Jr, na seção Tecnologia/Liderança discorre sobre erros cometidos por grandes executivos como Meg Whitman, do Ebay, Michael Dell e Steve Jobs. Leiam as reportagens na ordem apresentada aqui. Citei a primeira pois serve de base para meu comentário.
Fazendo alusão ao livro e ao que ele propõe, creio que um plano de negócios falho levou a Dell e o Ebay a cometerem equívocos ( em cenários como esse, decisões erradas geram déficits bilionários no fim do mês ) não tanto eventos adversos. Muito menos sorte.
Jobs, inegavelmente, lançou um produto do tamanho da expectativa gerada em torno dele ( tipicamente ), o iPhone. Design incrivelmente inovador, funcionalidades tipicamente “excitantes” aos nossos olhos, porém mesmo produtos excelentes tendem ao desprezo do consumidor quando vão de encontro à conceitos. E conceito de cliente é algo intocável.
A Apple subestimou, desprestigiou** seus consumidores e mostrou que, quando trata-se de alavancar vendas, ela pode ser bem parecida com a empresa do Tio Bill.
Já degustada em outros setores hoje é inegável a força que o conceito de liberdade vem trazendo ao mundo de T.I. E vender um produto amarrado ao fabricante é um pecado cada vez menos admitido por aí. E não foi diferente com a Apple.
Se a tecnologia cresce com a rapidez de uma criança, a liberdade a acompanha com a sabedoria de um monge.
Já pagamos pelo hardware, e está de bom tamanho.
**Quanto ao desprestígio, confesso que, dessa mancada eu ainda não tinha sido avisado. Conforme cita revista, em menos de 2 meses os preços dos celulares caíram 200 dólares. As filas e a espera pareciam ter sido em vão.
Para remediar eles deram um bônus aos apressadinhos. Será que funcionou ?