As Belas Coisas Que é do Céu Contê-las
10 July 2008
“O silêncio acaba se tornando um casulo, onde só dá para ouvir o eco de nossa própria voz… Senti isso de forma mais intensa nos primeiros dias da mercearia. Ali sozinho, atrás do balcão, era subitamente assaltado pela consciência terrível e assustadora de que tudo que eu havia amado estava perdido ou continuava a viver sem mim, a mais de dez mil quilômetros de distancia, e que tudo que eu possuia aqui não era uma vida, mas uma substituição precariamente construída…” Quando estava lendo este trecho, o avião em que estava, sobrevoava o atlântico a alguns milhares de quilômetros do Brasil. Este trecho escrito por Dinaw Mengestu em As Belas Coisas Que é do Céu Contê-las, me soou profundamente. Eu estava deixando pra trás tudo o que eu mais amo na vida. E é exatamente sobre isso que o livro fala. O título foi inspirado em um trecho de “Inferno” de Dante Alighieri.
“E as belas coisas, que é do céu contê-las, por um círculo eu vi no céu profundo; E ali saímos a rever as estrelas.”
Sepha Stephanos, etíope, abandona seu país em busca de uma vida mais digna nos EUA. Alguns anos depois, abre uma mercearia. Embalados e motivados por sonhos otimistas, Sepha e seus 2 amigos, vêem os impiedosos anos passarem. Sua mercearia já não lhe inspira como antes e aos poucos vai lhe mostrando talvez o maior dos ensinamentos da vida. Ela, a vida, só toma um rumo diferente se tiver o seu curso alterado por nós. Se deixarmos, sempre continuaremos a seguir reto. Mas Sepha parece não perceber isso e se entrega a uma profunda tristeza que só termina após conhecer Naomi, uma menina doce e inteligente, que vê nele um pai que ela não teve, e Judith, mãe de Naomi. Está formada a parte mais bonita da história.
Judith desperta o coração já adormecido de Stephanos. Entre raros beijos e muita conversa, ele redescobre um motivo para intensificar seus dias. Sua loja já não se encontra abandonada como antes. As calorosas conversas com Kenneth e Joseph, seus amigos, sobre a política na Africa dão lugar à comentários vagos e distantes. Sepha está encantado com Naomi e apaixonado por Judith.
Porém, no natal, Judith leva Naomi para Connecticut. Era uma viagem sem volta. Sepha perde o chão. E tudo o que havia sonhado enquanto elas ficaram em sua vida se perde em meio à um passado vazio.
Não se preocupem se pareço contar tudo o que o livro trás consigo, Dinaw Mengestu encontrou uma forma muito interessante de dar vida a essa história, que, querendo ou não, é muito parecida com a de muitas outras pessoas. O livro alterna os capítulos entre o passado e o presente. Perto do fim, as histórias se encontram. É mágico.
Leiam e descubram que a solidão nem sempre nos faz bem.
PS: A editora disponibilizou o primeiro capítulo do livro aqui. Vale a pena para os indecisos.
on July 14th, 2008 at 6:45 am
Mais uma excelente resenha. Mais uma vez segui tuas indicações. Já encomendei o livro no Submarino. Tenho certeza de que não vou me arrepender. Parabéns pelo post.
on July 15th, 2008 at 6:52 am
Olá Ana Cristina, que bom que tenha gostado. Volte para nos contar o que achou dele.
on July 25th, 2008 at 8:53 pm
com belas palavras e de maneira sutil, voce despertou em mim duas vontades: a de nao parar de ler. nunca.
e a de voltar a escrever.
parabens pelo seu blog. e continue exercitando sua ‘liberdade’ ao escrever.
e de pessoas esforcadas e que acrescentam em nossas vidas que o mundo precisa.
abs
on August 7th, 2008 at 3:16 am
Primeira vez que acesso esse blog, e já comecei gostando.
Parabéns pelo post.